Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de outubro de 2018

Ler é um processo muito difícil

Francisca Márcia dos Santos - Porvir

Ler é um processo muito difícil. Encontramos em nossas escolas muitos estudantes resistentes que não acham graça na leitura. Oriundos de famílias não leitoras e fascinados pela internet, a maioria deles considera que a leitura é coisa de pessoas antigas, do século passado. Como educadora me vi diante desse desafio: ensinar a ler a quem já sabe ler.

Este foi o meu objetivo quando, diante de um grupo de alunos adolescentes que desconheciam a leitura como hábito ou até mesmo como uma forma de buscar novos conhecimentos, uma aluna me questionou por que há tantos preconceitos em relação ao nordestino em nosso país. Foi aí que tive a ideia de trabalhar com a turma a obra “O quinze”, da autora Rachel de Queiroz.

Em uma visita à sala de leitura da nossa escola, apresentei-lhes o livro, que de imediato chamou a atenção dos alunos. Resolvemos que toda semana tiraríamos um tempo de nossas aulas para conhecê-lo melhor. Assim teve início o círculo de leitura, que era baseado na necessidade de conhecer e valorizar os nossos antepassados, estudar a vida do Cearense sofrido que não se deixou esmorecer pela seca, mas diante dela saiu a procura de sobrevivência para si e para sua família.

A obra “O quinze” veio para mim como um desafio. Além de incentivar o interesse pela leitura, eu queria mostrar para os alunos que era preciso conhecer a realidade histórica para entendermos o processo social, político e econômico que vivenciamos atualmente. Nossas aulas, a partir de então, tiveram como cenário a seca e a luta constante do nordestino.

As aulas se tornaram momentos de discussão e exposição de ideias sobre esse episódio que marcou nossa região. Para estabelecer uma relação com a obra, apresentei aos alunos um filme que leva o mesmo nome do livro. Quando indagados acerca do que viram e leram, eles apresentavam ideias mais elaboradas sobre os assuntos elencados. A imagem produz um efeito de sentido mais notável nos estudantes, sendo esta, aliada na hora de perceber se foi significativo nosso estudo sobre o tema proposto.

A partir desse estudo, desafiei os alunos a produzirem um álbum sobre a história, não só relatando o que liam ou assistiam, mas também deixando um comentário opinativo sobre o desenrolar dos fatos. Esta atividade foi uma produção coletiva que contou com a participação de quatro equipes, divididas nos seguintes tópicos: produção da biografia da autora, problemas sociais enfatizados na obra, contexto social em que se deram os acontecimentos e entrevistas com pessoas de nossa comunidade que tem algum grau de parentesco com os sobreviventes da seca de 1915.

É importante ressaltar que, em nossas observações para realizar esse trabalho, encontramos pessoas que nos relataram sobre outras secas e como suas famílias chegaram a nossa cidade fugindo delas. Outras também contaram como saíram daqui em busca de condições de vida no Amazonas, como bem retrata o personagem Chico Bento.

Alegro-me ao perceber que quando os estudantes estão engajados em desenvolver atividades como essas, que lhes oferecem oportunidades de buscar conhecimentos fora do ambiente escolar, eles se sentem mais ativos junto à comunidade. É notável a melhora na comunicação e na expressão de ideias. Eles puderam perceber que há uma certa ligação entre nós, cearenses globalizados, e aqueles flagelados pela seca tão bem retratado por Rachel de Queiroz. A diferença, às vezes camuflada, é que o preconceito só mudou de status.

Ver os alunos motivados em aprender mais sobre este momento histórico tão marcante me fez refletir sobre nossas escolhas como educadores. Muitas vezes, preocupados com o futuro e com os avanços tecnológicos, esquecemos de ensiná-los coisas simples de nossa gente.

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