Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de setembro de 2018

Menalton Braff: o segredo é o professor gostar de ler!

Galeno Amorim - 23/08/2018

Prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano no Brasil e com a experiência de ter ensinado Literatura a milhares de jovens por décadas, o escritor diz que não há uma receita de bolo para formar leitores. Mas se há um pulo do gato, diz, o primeiro deles é, sem dúvida, o professor gostar de ler! Leia essa entrevista exclusiva e curtinha que eu fiz com o Menalton para ele ajudar a refletir com você a prática da leitura na sala de aula.

P) Nos últimos 18 anos, desde que foi alçado ao seleto clube de vencedores do Livro do Ano no Brasil, você tem percorrido o país para falar em festivais, feiras e escolas. Sua impressão é que os jovens, desde então, estão se interessando mais ou menos pelos livros?

 

R) Não posso considerar minha opinião como a verdade, não passa de conhecimento empírico, mas me parece que adultos e crianças continuam sendo os contingentes sociais que mais leem. Os jovens reagem mais lentamente ao esforço que se tem feito para incentivar a leitura.

 

P) Além de autor, você também é um profundo conhecedor da Literatura. A safra atual de escritores têm feito uma literatura de qualidade?

R) Isto é muito discutível. O que se tem visto é uma onda de modismos que a meu ver são correntes efêmeras. O cruísmo e o brutalismo já começam a perder impulso. A onda agora é a autonarrativa (que me parece indicação de pobreza de imaginação de mistura com egolatria) e, entre jovens, a chamada distopia, que a meu ver não passa de escapismo bem como seu modelo, o orientalismo romântico. São modas que não vejo como se sustentarem por muito tempo. Isso não significa a falência da qualidade literária. Sem o furor dos modismos, autores sem tanta pressa de cair na boca da mídia continuam produzindo e produzindo obras de qualidade. Me parece que essas ficarão.  

 

P) Qual o pulo do gato para os professores formarem, além de leitores, jovens que gostem de ler?

 

R) O primeiro pulo é eles gostarem de ler. Um professor que não gosta de ler não consegue fazer leitores. Falar de literatura (sejam clássicos, sejam contemporâneos) com amor e entusiasmo, isso me parece o caminho mais curto. Mostrar o encantamento da leitura, a abertura da mente para o mundo (alargando seus horizontes) e para si mesmo, num processo de auto-identificação, mostrar o plano estético da linguagem literária, seu lado poético, são apenas alguns dos ingredientes desse processo.

 

P) Como professor de Literatura no Ensino Médio hoje fora da ativa, você diria que o ensino da Literatura nas escolas é chato, apenas razoável ou uma aventura que pode ser desafiadora e incrível?

 

R) O ensino da Literatura não pode ser uniformizado. Ele depende do professor, sua experiência como leitor, até que ponto a Literatura toca sua vida. Chato, razoável, uma aventura incrível, acho que de tudo existe, mas repito, é opinião minha, conhecimento empírico. Se o professor tiver amor pelo que transmite, me parece que o ensino não pode ser chato nem apenas razoável. Mas sem esquecer que do outro lado está o aluno, e sua recepção do que é ensinado também deve ser levado em conta. Uma formação familiar avessa às artes em geral, a qualquer assunto intelectual, vai dificultar em algum grau a aceitação da Literatura. Numa mesma classe, encontram-se alunos dos mais variados tipos. Alguns vão amar, outros vão suportar, outros finalmente vão detestar. Depende da origem de cada um.

 

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