Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de outubro de 2018

Cercado por livros

Ramon Ribeiro - 08/07/2018

Se tem uma área que o senhor José Xavier Cortez conhece bem essa área é a dos livros. Ele se dedica ao mercado livreiro desde os tempos que cursava Economia na PUC-SP e vendia livros para os colegas de classe até os dias de hoje, quando, aos 82 anos, segue à frente da Editora Cortez, fundada por ele em 1980. Nascido no Sítio Santa Rita, na zona rural de Currais Novos, Cortez construiu toda sua história como livreiro e editor em São Paulo, mas nunca deixou de visitar sua terra de origem.

Fundador da Editora Cortez, o curraisnovense José Xavier Cortez está de férias pelo Rio Grande do Norte. Ele construiu sua vida como livreiro e editor em São Paulo, mas nunca deixou de visitar sua terra Natal, o Sítio Santa Rita, na zona rural de Currais NovosDe férias no Rio Grande do Norte, um de seus primeiros pontos de parada foi o centenário sítio da família. “Estive lá semana passada. Fui com minhas filhas e netos. Quis mostrar para os netinhos onde cresci. Fizemos uma festa de São João lá”, conta o editor. Cortez também aproveitou a ida a Currais Novos para dar uma esticadinha no município vizinho, Lagoa Nova, e fazer uma das coisas que mais gosta, que é palestrar sobre a importância da leitura. “Desde que sai de casa a leitura passou a fazer parte do meu cotidiano. A leitura me levou a ser o que sou hoje”.Nesta entrevista a TRIBUNA DO NORTE Cortez conversou um pouco sobre sua área, a dos livros, e sua terra, o Sítio Novo. Lembrou os passos que o levaram a entrar no mercado livreiro, contou de como deu um drible na censura durante a Ditadura Militar e também falou sobre as dificuldades enfrentadas pelas editoras brasileiras nos dias atuais. Sítio Santa Rita Sou nascido e criado no sertão do Seridó, no Sítio Santa Rita, distante 25 km do centro de Currais Novos. Esse sítio foi deixado pelo meu avô aos meus pais. Fui criado no cabo da enxada, plantando milho, feijão. Era um trabalho duro lá e ainda tínhamos que ir para escola rural, onde aprendi a carta do ABC. No meu tempo não tinha biblioteca, não tinha livro, o método de ensino ainda era arcaico. A vida no sertão, com a seca, é muito difícil, principalmente para uma família com mais de 10 filhos como a nossa. Percebi que aquela terra não ia se multiplicar então quando completei 17 anos fui para Natal. Passagem pela Marinha Quando fiz 18 anos, servi a Marinha. Fiquei de 1955 até 1964, quando me expulsaram por questões políticas. Eu já estava morando no Rio de Janeiro, mas me mudei para São Paulo. Sai da roça, fui maquinista na Marinha, mas em São Paulo eu não tinha como trabalhar com nada disso. Comecei do zero trabalhando como lavador de carros num estacionamento. Até que em 1966 consegui entrar no curso de Economia da PUC-SP. Foi quando a minha vida mudou completamente. Vender livro na faculdade Na época da PUC eu morava do lado de uma editora de livros acadêmicos. Aproveitei para revender algumas obras para os meus colegas de classe. Com o tempo a venda de livros estava me oferecendo condições financeiras melhores do que a que tinha numa empresa em que estava trabalhando (uma revendedora de peças de automóveis). Então passei a me dedicar inteiramente a venda de livros. Meu nome ficou conhecido na universidade, passei a ser procurado por estudantes e professores. Até que em 1968, fundei a livraria Cortez. Aprendendo na prática A trajetória de livreiro até editor eu fiz sem conhecimento de mercado. Fui aprendendo na prática, abraçando as oportunidades que surgiam. Por exemplo, eu tinha um contato que me permitia trazer para o país livros proibidos pela Ditadura. As pessoas me viam com confiança, principalmente os professores. Nessa época, a PUC-SP era um dos espaços de resistência, abrigava intelectuais que combatiam o golpe, como Paulo Freire e Florestan Fernandes. Esse período teve uma importância muito grande na abertura da livraria e da editora, definindo nossa linha editorial. Foco nas discussões contemporâneas Em 1980 eu começo a editora. As primeiras publicações foram de teses de mestrado e doutorado, em sua maioria de abordagens que divergiam do sistema da época. Até hoje mantemos essa linha progressista. É um perfil que não abdico. Sempre buscamos debater as grandes questões nacionais. É importante ressaltar nesse nosso começo da editora que os professores foram os grandes responsáveis pelo meu amadurecimento na área. Eles participavam de conferências pelo país e levavam os livros. Driblando a censura Eu tinha medo da ditadura, mas nunca fui pego. Pra você ter uma ideia, eu não comentava que tinha passado pela Marinha. Me preocupava com dedo-duros, que alguém me cagüetasse. Mas nunca cheguei a ter problemas com os Militares. O mais perto disso foi com a publicação de um livro de um autor argentino. O livro se chamava “Servicio Social Pueblo”. Quando estava indo pra gráfica, saiu na imprensa que a obra estava proibida. Mas demos um jeito. Tiramos a palavra povo do título, que era o que assustava as autoridades, e publicamos do mesmo jeito, sem os censores perceberem. Publicamos com o nome “Sete Estudos Sobre Serviço Social”. Foi bastante lido nos anos 70 e 80. As dificuldades de manter uma editora De 2015 pra cá o mercado livreiro teve um baque muito grande. Pra você ter uma ideia, em 2014 a gente tinha 70 funcionários, hoje são apenas 30. As pequenas livrarias desapareceram. A nossa, fechamos em 2016. Ficamos só com a editora. Não tínhamos condições de sobreviver num mercado tão especulativo, com domínio das grandes redes que pedem descontos exorbitantes. Os governos, em todos os níveis, não compram mais livros. O papel tem o processo tabelado, definido por poucas empresas que dominam essa área. Outro problema são os atrasos no pagamento, que afeta toda a cadeia. O fato é que existe uma anomalia no mercado livreiro, e isso existe em detrimento da cultura nacional. Educação é prioridade para o crescimento de qualquer pessoa. Livro não é custo. É investimento. Mas não é feito nada para mudar esse cenário. Raízes seridoenses Eu sempre visito o sítio da família. É muito bom poder conviver com as nossas origens. Quando vou no sítio me conecto com meu passado, encontro colegas que estudaram comigo na escola. Eu tenho a preocupação de que poderia estar melhor. Ainda há muitos analfabetos, muita ignorância. Mas eu nunca deixei de acreditar da força transformadora dos livros. Como eu sempre digo nas minhas rodas de conversa, desde que sai de casa a leitura passou a fazer parte do meu cotidiano. E foi ela que me levou a ser o que sou hoje.

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