Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de outubro de 2018

Leitura em voz alta de obras literárias

Reynaldo Domingos Ferreira

A jornalista, escritora, poeta e blogueira Theresa Catharina de Góes Campos repercute, em seus sites, o meu pequeno comentário sobre o exercício de respiração, que se faz, quando se canta. Cantar é respirar. Cantar é viver. E fazer chegar, por meio da mecânica da respiração, energia ao interior do nosso corpo. 
Um cantor lírico, por exemplo, para atingir agudos maravilhosos, como os de Caruso, de Tito Schipa, de Pavarotti, de Plácido Domingos, de Giuseppe di Stefano, de Juan Diego Flores, de Andrea Bocelli e de outros, precisa, antes de tudo, saber trabalhar com a respiração, ou seja, no caso, levá-la ao diafragma, para extrair de lá, de volta, a força da emissão dos sons mais elevados. Assim, pelo que se compreende, não se pode nunca sustentar, ao cantar, uma tonalidade variável, modulada, de mais porte e beleza, apenas nas frágeis cordas vocais, que, assim, afetadas, tenderiam a criar calos irreversíveis, como teria sido o que aconteceu, no passado, entre os nossos cantores populares, com Jorge Goulart e, no presente ( a se confirmar ), com Milton Nascimento. Isso é fundamental.
Mas, é preciso acrescentar ainda que, além do exercício do canto, ganha-se também, e muito, em respiração, alimento essencial da nossa vida, quando se pratica yoga principalmente e, ainda, quando se lê em voz alta algum trecho de obra literária, o que pode ser feito, até por pessoas solitárias, diante de um espelho, como por exemplo, esses belos versos de Gonçalves Dias: " Não chores, meu filho, / Não chores que a vida / É luta renhida / Viver é lutar! " Ou esses de Castro Alves: " Bendito o que semeia / Livros, livros / Ah mão cheia / E manda o povo pensar / Que o livro caindo n'alma / E germe que faz a palma / E Chuva que faz o mar." Essa prática ajuda bastante aos atores a aprimorarem a dicção e a empostação de voz.
A propósito, vale aqui destacar a iniciativa da Biblioteca Nacional da França, que está dando início, esta semana, a uma programação de leitura oral de obras clássicas, a ser realizada por atores do teatro e do cinema, incluindo os da Comédie Française, não só da literatura do país, como "O Vermelho e o Negro ",  de Stendhal, mas também da internacional, como o difícil de ser lido " O Homem sem Qualidades ", do alemão Robert Musil, que, nesse sentido, o da complexidade, compete com o " Ulisses", de James Joyce. 
O ator Mathieu Amalric, que vai fazer a leitura de uma adaptação da obra de Musil, afirmou, em entrevista à imprensa, que "a leitura oral é, antes de tudo, um gesto de amizade". E ele tem razão. Ou está coberto dela. É possível que, para dizer isso, ele tenha se inspirado em Antoine de Saint-Exupéry, que, dono da cobertura de um edifício de vista, das mais bonitas de Paris, tinha esse hábito de telefonar às pessoas de sua estima, para ler-lhes trechos de suas obras, como " Terra dos Homens" ou " O Pequeno Príncipe ", bem como de outros autores de sua preferência. 
É uma pena que não tenhamos esse salutar costume. É triste chegar a uma biblioteca brasileira e ver funcionários ressonando, diante de suas mesas de " trabalho", sem tomar jamais iniciativas como essa. É incrível, mas é verdade, a grande parte dos que se dizem bibliotecários, no país, não gosta de leitura.  A Biblioteca Nacional de Brasília, se valesse para alguma coisa - o edifício mais parece um mausoléu, com seus longos corredores vazios -, deveria promover também sessões de leituras orais de obras de, pelo menos, autores, que residem nesta cidade, que não encontram espaços para eles próprios ou por atores lerem seus escritos. Só ganham aqui espaços nas feiras, nas bienais de livros, e, na imprensa local, autores que veem de fora.

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