Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de outubro de 2018

Livros, histórias, sensações

Miriam Leitão

Hoje consigo ler no escuro. Não exatamente escuro, na verdade eu gosto de ler na pouca luz. O que permite isso é o livro digital pela luz da tela. Infelizmente não posso mais fazer o mesmo com os livros físicos, porque não enxergaria. Mas esse ambiente de sombras me dá a sensação da volta à infância e estar bem guardada entre livros.

Acordava mais cedo para ler por mais tempo. A casa ainda dormia, e eu com os claros olhos das crianças conseguia ler mesmo sem acender a luz. Não havia abajur no grande quarto de quatro camas que eu dividia com minhas irmãs mais velhas. A luminosidade do dia apenas se insinuava pelas vidraças das janelas sem cortina da casa, e eu já estava de volta às aventuras dos livros que capturavam minha mente. Meu pai costumava dar uma incerta:

– De novo lendo no escuro. Levante, tome café e vá para um lugar iluminado. Você vai estragar a vista - dizia ele.

Forçada, saía do aconchego da cama, do escurinho e do livro e ia fingir interesse pela comida posta sobre a mesa. Apenas pelo tempo suficiente para voltar correndo para o livro. Nunca estraguei a vista. Só o tempo impôs o óculos para leitura. O que ficou foi a sensação que liga leitura a aconchego.

Foi esse encantamento com o livro que me levou de volta à literatura infantil, como escritora. Exatamente a magia que sentia na penumbra das manhãs mal começadas nas quais eu retomava a leitura interrompida no sono da noite, e me deixava levar.

De vez em quando ouço que uma criança gostou de um livro meu e isso me deixa em deslumbramento. Outro dia uma amiga escreveu dizendo que o filho aprendera a ler, mas pede para ela ler antes de ele dormir. E ultimamente tem pedido sempre um livro meu com o qual está encantado.

O motorista que me levou na semana passada à minha cidade, em Minas, me falou que quando criança a sua mãe contava sempre a mesma história. Não sabia outras. Apenas aquela que ele nunca esqueceu. Não há nada de diferente nas crianças de hoje. As mudanças tecnológicas não alteraram sua natureza. Criança gosta de história. Hoje alguns livros não têm exatamente história. Querem tanto agradar às crianças que montam brincadeiras, mas não constroem enredo, não tentam envolver a criança numa sucessão de eventos. Fui com meu neto Daniel a uma livraria e ele, depois de muito procurar, reclamou que só tinha encontrado “livro-atividade". Ele queria uma história, que acabamos encontrando.

Outro dia fui visitar uma irmã e a neta dela de três anos ficou brincando perto enquanto a gente conversava. De repente, ela se levantou, pôs as mãos na cintura, e me disse:

– Você está aqui há muito tempo e até agora não me contou uma história.

Minha neta mais nova estava chorando sentido. Chorava por bons motivos, e se eu estivesse no lugar dela faria a mesma coisa. Eu a coloquei no colo e inventei uma história boba, meio real, de um jacu que atacava a horta da Chiquinha. E a mulher plantava outra horta em outro lugar e lá ia o jacu e comia tudo. E criei uma negociação entre Chiquinha e a ave e fui por aí em invencionices. O choro parou, ela enxugou as lágrimas e pediu para contar de novo. História é acalanto.

Pais hoje preferem muitas vezes entregar um cala-boca eletrônico a contar uma história. Não quero parar a roda da tecnologia, mas continuarei convencida de que as histórias, os livros, os relatos da infância dos pais e avós, as criações mágicas a partir de retalhos da realidade são mais do que um passatempo. Vão fertilizar as mentes, vão construir sensações, vão atar relações para a vida inteira.

(G1 10/03/2018)

Mais Colunistas

Todas as notícias sobre "Colunistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

635.040.000

Livros lidos em 294 dias de 2018 no país

Publicidade