Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

13 de dezembro de 2017

Na Suécia, escritora brasileira cria biblioteca infantil no jardim de casa

RFI - 03/12/2017


A poeta e escritora carioca Ilana Eleá transformou a dor de uma depressão na Suécia em um sonho literário: criar uma biblioteca infantil no jardim de casa, em Estocolmo, e transformar o quintal em um espaço literário para promover a leitura de livros entre crianças suecas e brasileiras.

O cenário é quase uma poesia concreta. A biblioteca de Ilana funciona em uma pequena réplica em madeira de uma idílica casa sueca dos anos 20. À sua volta, crianças e pais folheiam livros e fazem performances e leituras em voz alta. No jardim de mil metros quadrados, Ilana espalha mesas cheias de livros e bolos, e uma fogueira espanta o frio nos dias gelados do inverno.

“A proposta da biblioteca é oferecer um espaço de convivência literária aqui no bairro. Temos atividades semanais, e nosso acervo é diversificado. Mas o enfoque é claro: livros de literatura infantil que tenham uma linguagem poética, que sejam ricos em metáforas, belamente ilustrados. E livros que abordem questões existencialistas, porque perguntas sobre a existência são fundamentais.

Quando a crise vira uma oportunidade

A ideia nasceu de uma crise pessoal. Com doutorado em Educação pela PUC do Rio de Janeiro, Ilana dava aulas na universidade quando conheceu o marido sueco, Johan Averstedt, em um site de relacionamentos. Em 2011, ela desembarcou na Suécia. Foram tempos difíceis: era difícil aprender a língua sueca, era difícil se adaptar à nova cultura e aos dias escuros do rigoroso inverno nórdico.

Dois anos mais tarde, Ilana chegou a conseguir trabalho como pesquisadora da Universidade de Gotemburgo. Mas a depressão se acentuou. E só foi superada, segundo ela, graças ao sistema sueco de apoio aos trabalhadores.

“A Suécia me salvou”, diz Ilana. “O sistema de previdência sueco me ofereceu um mês de licença para ficar em casa, com salário pago, e a prescrição médica foi muito simples: fazer longas caminhadas, e apenas coisas que eu gostasse de fazer. Fiz as longas caminhadas, li muito, fui a eventos literários. E meu coração indicou que era isso que eu tinha que fazer: mudar a direção, mudar de área e trabalhar com literatura. Começar do zero. Quando eu voltei um mês depois, muito constrangida por ter que dizer que eu pediria demissão, depois de todo o tempo que investiram no meu tratamento, a médica na verdade me parabenizou. E disse, ‘vai ser apenas uma questão de tempo para que você seja novamente produtiva para a Suécia, e como uma cidadã feliz, que é o que queremos’”, conta Ilana.

Café com bolo e livros

Mãe de Dante, de cinco anos, e Liv, de dois anos de idade, Ilana transformou a sua trajetória no livro “Ela foi para a Suécia”, com lançamento no Brasil previsto para fevereiro. E se dedicou a plantar no jardim de casa a biblioteca infantil, que acabou virando mais uma poesia de Ilana:

“Uma biblioteca para o bairro nasce em jardim de casa, pintada de amarelo, com telhado de tijolo, e livros e gentes e fogueiras e cantos e poesias e bolos de histórias, ilustrando as tardes das crianças e suas famílias. Páginas são sementes para um peito leitor. Esse que bate, esse que nasce em voz alta ou sussurada, quando a lâmpada deita com a noite. Livros semeiam quintais com literatura. Essas árvores, essas casas acesas, somos nós”, ela recita.

Todas as quartas-feiras, Ilana abre as portas da biblioteca para pais e crianças a partir de dois anos de idade. Às quatro e meia da tarde, os bolos que Ilana faz começam a sair do forno. É a hora do que os suecos chamam de “fika” – a pausa para o café. Em seguida, começam as leituras de livros em voz alta, e as performances de música realizadas pelas crianças ou pelos pais.

Inaugurada em setembro, a biblioteca tem um acervo de cerca de 200 livros – que aumenta a cada dia, com as doações de livros que vão chegando. O plano de Ilana é expandir as atividades da biblioteca, que já começa a receber a visita de turmas de escolas locais, e criar um acervo de obras infantis brasileiras. A primeira doação já está a caminho: um lote de 50 livros doados a Ilana pela Biblioteca Pública do Paraná.

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