Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

16 de dezembro de 2017

O brasileiro lê muito

Paulo Tedesco

A reflexão necessária é de que há uma espécie de preconceito aberto e declarado, como se chamar o povo de burro fosse regra, ou que as pessoas não compram livros nem leem aquilo que certa elite gostaria porque são ignorantes. Também há a hipótese de que a desinformação sobre o mercado do livro e os índices de leitura seja gigantesca, e que mesmo bons jornalistas e profissionais da comunicação têm dificuldade em encontrar dados que derrubem esse conceito, ou preconceito, sobre os índices de leitura.

População

Não podemos, porém, deixar de observar que para o tamanho do país e da população; se comparados a vizinhos como Argentina, nossa leitura per capta é de fato tímida.

E que a leitura poderia ser melhor, visto, por exemplo, a ausência de leitores com seus livros abertos em lugares públicos como em metrôs e ônibus. Mas, para isso, é bom não esquecer que nas universidades muito ainda se usa; infelizmente, as tais cópias “xerox”, como substituição ao livro, e que essas cópias não entram nos números, tampouco cálculos estatísticos; ou sequer passam nos olhos ávidos de quem procura um leitor de livro aberto numa estação de metrô.

Lemos mal

Em verdade, e aqui uma opinião mais do que honesta, é de que embora leiamos muito a realidade é de que lemos mal, e muito mal. O fato de encontrarmos livros infanto-juvenis adotados em escolas com erros de pontuação e histórias frouxas; ruins, é um comprovador.

Também é comum encontrar autor que se autopublica dizendo vender bem a cada nova tiragem ou novo título; e depois descobrirmos que seus leitores; e eles existem como se comprova na gráfica ou nas vendas pelo KDP da Amazon; não percebem como fracas são suas histórias e como confusos são seus pensamentos ou mesmo a organização do seu texto.

Livros

Há, também, nesse deserto do texto ruim, livros impressos fora do país mas vendidos a preços impressionantemente baixos, livros estes muitas vezes com histórias sofríveis e ilustrações deprimentes.

E ainda há os títulos traduzidos às pressas ou por maus tradutores; e aqui entra a literatura adulta de qualquer área; como outro sinal da má qualidade do que chega ao leitor; que, por sua vez toma aquilo como uma média do que pode ser escrito e do que deve ser lido. Em outras palavras, o referencial do que é bom em escrita e leitura, no Brasil, é um desespero de tão ruim.

Em outros artigos defendi e sigo defendendo a importância da escrita criativa e suas oficinas, pois; como referência, nos EUA pós-guerra; esse foi um dos instrumentos para não só movimentar o mercado norte-americano como por outro reforçar a educação fora das escolas.

Enquanto isso, neste Brasil continental de história tão amiga à elites que preferem a escravidão à liberdade; talvez não devesse soar estranho afirmar que o povo brasileiro simplesmente não lê porque é ignorante.

Mas não sou da elite, sou do povo, do estudante da escola pública, e dos otimistas; pois gosto de pensar que apesar das elites e de nossa história de golpes e massacres, o povo ainda lê, e ainda quer ler mais e melhor. E, quem sabe, talvez aí esteja a tarefa dos editores; autores e agentes do mercado: superar o preconceito e fazer mais e melhor pelo leitor brasileiro.

(Correio do Brasil - 03/12/2017)

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Paulo Tedesco é escritor, consultor e professor de produção escrita editorial.

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