Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de julho de 2018

O iPad de duas caras

Kimberly White

Reuters - 04/04/2010

Em 10 anos escrevendo análises sobre aparelhos tecnológicos, nunca vi algo tão capaz de polarizar opiniões quanto o iPad, da Apple, que chegou sábado às lojas nos EUA.

"O dispositivo é tão absurdo que dá vontade de rir", diz um típico comentário de blogs de tecnologia. "Como eles esperam que alguém trabalhe num computador sem mouse?"

"Trata-se realmente de uma revolução mágica", diz outro. "Não posso crer que alguém queira voltar a usar mouse e teclado depois de experimentar a nova interface da Apple!"

São opiniões bastante confiantes sobre o iPad – levando-se em conta que os autores testaram o aparelho. Seja como for, há um padrão nestas avaliações. As opiniões negativas costumam vir dos amantes da tecnologia; as positivas vêm dos outros.

Assim, nenhum texto poderia atender aos dois tipos de leitores. Resta uma única solução: redigir análises diferentes para os dois públicos.

Leia a primeira se você for um amante da tecnologia. Para saber se é o seu caso, basta responder a este teste: você usa BitTorrent? Roda sistemas Linux? Tem mais endereços de e-mail do que calças?

Em caso afirmativo, você é um tecnófilo. Mas se você não se enquadra na descrição acima, leia a segunda. 

Laptop, smartphone... para que carregar outro aparelho?
O iPad é essencialmente uma versão gigante do iPod Touch. Trata-se de uma placa de 1,25cm de espessura, com a parte de cima em vidro e a traseira em alumínio. Praticamente não há botões – somente um grande botão "home" sob a tela, que dá acesso aos aplicativos disponíveis, como no iPhone.

Um dos modelos só é capaz de acessar a internet via Wi-Fi (os modelos com capacidade de armazenamento de 16 a 64 gigabytes custam entre US$ 500 e US$ 700). O outro modelo pode recorrer à rede celular da AT&T – esta característica aumenta o preço em US$ 130.

O funcionamento do iPad se dá por meio de toques no vidro, selecionando e arrastando objetos, como no iPhone. Quando a tela está desligada, cada impressão digital torna-se desagradavelmente evidente.

Não é possível ler adequadamente sob a luz direta do sol. Pesando quase 700 gramas, o iPad torna-se pesado nas mãos após algum tempo de uso (o Kindle pesa menos de 300 gramas). E não é possível ler os livros vendidos na loja da Apple em nenhum outro dispositivo – nem num Mac ou iPhone.

Quando o iPad está na posição vertical, digitar no teclado exibido na tela é uma experiência horrível; na horizontal, torna-se minimamente usável. Um conector será disponibilizado e deve custar US$ 70.

Ao menos a Apple teve a decência de conferir ao iPad um processador muito rápido. Os aplicativos abrem rapidamente, a navegação é veloz, e os arquivos não demoram para carregar. A visualização do conteúdo online é muito mais confortável do que na pequenina tela do iPhone – primeiro, por causa da rapidez, e segundo, porque não são necessários tantos ajustes para leitura.

O iPad é incapaz de exibir vídeos no formato Flash. A Apple diz que é problemático, pouco seguro e esgota as baterias. Pode ser que sim, mas, enquanto isso, milhares de páginas da rede são exibidas com quadrados brancos vazios no iPad – são espaços onde os vídeos e as animações deveriam ser exibidos.

Também não é possível a execução de múltiplas tarefas, só um aplicativo por vez, como no iPhone. E não há entradas USB e nem câmera.

Sabemos que a Apple está guardando recursos para os modelos que serão lançados no ano que vem. Mas se você já tem um smartphone e um laptop – com teclado completo, leitor de DVD, webcam e tudo o mais –, para que carregar um terceiro dispositivo?

Excelente para acessar conteúdo
O iPad é essencialmente uma versão gigante do iPod Touch. Mas só o fato de a tela sensível a múltiplos toques ter sido ampliada muda completamente sua experiência de uso.

Mapas tornam-se reais, como os de papel. É possível visualizar simultaneamente a caixa de entrada de e-mails e as mensagens abertas. O novo aplicativo iBooks para a leitura de arquivos em formato digital está repleto de detalhes interessantes e úteis. Controles para a definição da fonte, do corpo e do brilho aparecem com um toque. Basta tocar numa palavra para acessar o verbete dela no dicionário ou buscá-la no Google.

O principal atrativo do iPad é a grande seleção de aplicativos. A Apple diz que 150 mil aplicativos já existentes para o iPhone funcionarão no iPad. Eles serão exibidos em seu tamanho original, ou podem ser ampliados.

Mas a verdadeira diversão começa quando o usuário experimenta os aplicativos desenvolvidos especificamente para a tela maior do iPad. Os aplicativos desenvolvidos para os jornais reproduzirão a diagramação, as fotos e as cores de um jornal de verdade.

O aplicativo de quadrinhos da Marvel é brilhante em sua vividez e navegação quadro a quadro. O site Hulu.com, central dos mais populares programas de televisão na rede, não confirma os rumores de um aplicativo para o iPad, mas imagine: uma fonte infinita, sem fio, de tela plana, para os melhores programas de TV gratuitos, trazida na mochila?

E por falar em vídeo, a Apple afirma que o iPad funciona por 10 horas com uma carga completa de sua bateria fixa – mas todos sabem que não se pode confiar no fabricante. Por incrível que pareça, no teste que realizei, o iPad reproduziu vídeos continuamente por mais de 12 horas.

O iPad é tão rápido e leve, sua tela sensível a múltiplos toques tão clara e precisa, e o software é tão fácil de usar, que o dispositivo realmente parece fundar uma nova categoria entre os aparelhos eletrônicos. O iPad pode ser um bom computador a prova de trapalhadas para quem não se dá bem com a tecnologia.

O iPad não é um laptop. Ele não possui nem de longe o mesmo poder. Por outro lado, ele é infinitamente mais conveniente para o consumo de conteúdo. Para a maioria das pessoas, manipular este material por meio do toque é uma experiência completamente nova – e profundamente satisfatória. A única pergunta é: você gosta do conceito?

♦ Compre: A tela ampla e o multitoque eficiente criam um novo tipo de experiência digital. E já dá para esquecer do mouse.

♦ Espere: Sem câmera, suporte a Flash, entradas USB ou para cartão de memória, ainda não substitui o laptop.

(Tradução de Augusto Calil)

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