Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de setembro de 2018

Livrarias - os dois lados de uma mesma moeda

Vitor Tavares

O Estado de S.Paulo - 30/03/2010

Comemoramos o crescimento médio do segmento, mas temos clareza de que ele não reflete o setor como um todo. A concentração de livrarias nos grandes centros é cada vez mais forte. Tememos que isso, nos próximos dez anos, chegue perto dos 70%.

O crescimento médio do segmento de livrarias no Brasil, em 2009, comparativamente ao ano de 2008, foi de 9,73%. No levantamento da Associação Nacional de Livrarias (ANL) de 2008, a expectativa de crescimento do setor de livrarias para o ano de 2009 era de 11,89%. Acreditamos que a queda de 2,16% tenha sido um reflexo direto da crise econômica desse período.

Os segmentos que demonstraram maior crescimento foram o infantil e o juvenil. A qualidade dos livros infantis influenciou na conquista desse público, que começa a descobrir o prazer de ler. Eles estão mais lúdicos, dinâmicos e atraem a atenção da criança. A leitura deixou de ser obrigatória e o livro tornou-se um objeto de entretenimento.

Sabemos que, apesar desse bom resultado, o crescimento em 2009 não superou a meta prevista pelo segmento, que era de 11,89%. Mas consideramos que o índice de 9,73% é um excelente resultado, se comparamos com o baixo crescimento do produto interno bruto (PIB) de 2009.

Agregamos, atualmente, cerca de 65% do mercado de livrarias do País, e o desempenho das livrarias no Brasil é considerado bom por causa, principalmente, do mercado editorial, que se mantém rico e variado.

Outro destaque, agora por parte dos livreiros, é a conscientização de balancear o acervo entre best-sellers e livros especializados.

Mas essa não é a realidade do segmento como um todo. Sabemos que para boa parte das livrarias localizadas fora dos grandes centros, como em cidades de médio e pequeno porte, a sobrevivência está cada vez mais difícil.

A maioria das nossas crianças, que mora fora dos grandes centros, não tem acesso sequer a uma livraria. Hoje, sem nenhuma sombra de dúvida, a concorrência desleal por parte de alguns sites varejistas, que - como os dos supermercados, por exemplo - também vendem livros, não permite que as pequenas e as médias livrarias consigam ter o seu balanço fora do vermelho.

Em nossa pesquisa sobre o segmento das livrarias no Brasil, apresentado no início deste ano, foi possível identificar que 30% dos filiados à ANL ainda não têm condições e não estão preparados para usar a ferramenta do e-commerce.

Uma coisa é montar o site da livraria para expor seus produtos, outra, bem diferente, é usar essa ferramenta no seu e-commerce. Para realizar esse tipo de venda é necessário que a livraria esteja com todo o estoque informatizado; isso requer também profissionalismo na venda, funcionários treinados e um grande investimento. Infelizmente, sabemos que boa parte dos livreiros de cidades pequenas, e até mesmo das médias, não conseguem bancar os custos desse investimento.

Representatividade das vendas online no faturamento da livraria em 2009:

De 0 a 10% dos entrevistados responderam: 50%;
De 11% a 20% dos entrevistados responderam: 10%;
De 21% a 40% dos entrevistados responderam: 2,5%;
De 41% a 60% dos entrevistados responderam: 2,5%;
Acima de 61% dos entrevistados responderam: 5%;
Não têm vendas eletrônicas 30% dos entrevistados.

Infelizmente, esta preocupante realidade não se apresenta apenas fora dos grandes centros. As livrarias de bairro, especializadas e independentes, também não estão indo bem. Muitas não conseguem acompanhar o crescimento médio revelado em nosso levantamento e vêm fechando suas portas.

Não é nenhuma novidade para o setor que isso seja um resultado direto da concorrência predatória. Práticas comerciais abusivas, como descontos em alta escala por parte de algumas grandes redes, de supermercados e da internet, estão provocando a extinção das livrarias independentes. E ainda mais prejudiciais são as vendas efetuadas por algumas editoras e distribuidoras do País diretamente ao consumidor final, com os mesmos preços oferecidos às livrarias. Tal ação é proibida em alguns países, como na França, que tem um programa nacional de defesa das livrarias independentes, um molde que poderia ser seguido em nosso país.

Os franceses vão além no que se refere ao respeito e ao reconhecimento dos livreiros daquele país. As livrarias independentes - as quais, aqui, no Brasil, lutam por sua sobrevivência, cada vez mais difícil - francesas têm um selo indicativo de qualidade, o Librairie Indépendante de Référence (LIR). "O selo fazia parte do "Plan Livre" lançado em 2007 e muito aguardado por todos. Até setembro passado, 406 das 3 mil livrarias independentes francesas haviam se qualificado para a certificação. As livrarias que se qualificarem para o LIR recebem incentivos fiscais do governo e apoio financeiro do Centre National du Livre (CNL), que inclui empréstimos sem juros para melhorias na loja e subsídios para eventos", revelou Olivia Snaije, do Publishing Perspectives.

Segundo a Unesco, o ideal é uma relação de 10 mil habitantes por livraria, porém no Brasil, segundo dados da própria ANL, temos apenas 2.500 livrarias espalhadas por todo o território nacional. E, deste total, o ideal aceitável e recomendado, então, seria de aproximadamente 4.900 livrarias, com uma ótima distribuição entre todos os municípios brasileiros.

Assim, poderíamos incluir a leitura, o conhecimento e a cultura para todos, com igualdade e socialização.

Vitor Tavares é executivo na área da Livrarias há 20 anos. É presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) e diretor das Livrarias Loyola.
E-mail:
anl@anl.org.br

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