Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de julho de 2018

A importância de Monteiro Lobato

Fabiano Possebon

Desde criança tenho verdadeira fascinação por Monteiro Lobato. Suas obras embalavam minhas noites insones. Mesmo criança, tentei ler suas obras para adultos, mas não consegui. Realmente, elas foram escritas de um modo muito difícil.

A simpática Tia Nastácia é a encarnação de todo o folclore brasileiro. Dona Benta e Tia Nastácia são dois símbolos: a primeira representa a ciência e a segunda a sabedoria popular.

O contato com a natureza, o contato com aquela gente simples do Vale do Paraíba ajudou-o muito a criar os seus personagens, a montar o Sítio e a construir a figura do Jeca Tatu.

O que ele desejava com a campanha do petróleo e do ferro? Era ver o Brasil progredindo tecnologicamente. O que impedia o Brasil de ter o progresso dos Estados Unidos? Na época, ele assim se expressou: “Eu vou ferrar o Brasil”. Isto queria dizer – encher o país de ferro.

Também outra ideia o obsediava – entupir a nação de livros: “Precisava entupir este país com uma chuva de livros”.

Foi ele um dos pioneiros no campo editorial. E pensar que quando começou a trabalhar nisso, o nosso país possuía somente umas trinta e poucas livrarias! Ele adorava apoiar os novos talentos e conseguiu realizar seu sonho, que era o de dar acentos líricos à prosa matuta.

Foi fã de Nietzsche, Gogol, Dostoievski, Tolstoi, Castelo Branco. Realizou traduções importantes, traduziu Hans Staden, Henry Ford, Mark Twain, Edgar Rice Burroughs, Ernest Hemingway. Quando adolescente, era fã de Robinson Crusoe e Júlio Verne, depois George Washington, Abraham Lincoln e Henry Ford.

O que acho muito bonito em Lobato é a sua luta pela divulgação do livro, conseguiu ele espalhar livros pelo Brasil todo, esta foi uma experiência bela e salutar para ele. “Um país se faz com homens e livros”, pontificava ele.

E pensar que, naquela época já eram obras bem impressas, podemos dizer que bem modernas.

Sua editora fez muito sucesso, editou autores importantes como Lima Barreto, Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho.

Sempre louvou as novas forças literárias, incentivou sempre o jovem escritor, pois em sua época, para ser escritor tinha que ser “filhinho de papai” ou ter um “pistolão”.

O que o deixou, realmente, feliz da vida, afora o casamento com sua amada Purezinha, o nascimento dos filhos (dois morreram moços ainda, de tuberculose), o trabalho, as amizades, seu ideal, foi o grande reconhecimento do público. Não é todo escritor que consegue isso. Muitas crianças lhe mandavam cartas declarando o quanto o amavam e como ele foi importante em suas vidas. Uma menina chegou a pedir um pouquinho de pó de pirlimpimpim, queria sumir e aparecer na lua. Algumas crianças pediam até para ele incluí-las nas próximas estórias. Adultos também escreviam.

“Feedback”, o retorno, o reconhecimento do público não lhe faltou.

Por outro lado, a grande tristeza de Lobato foi se sentir impossibilitado de se expressar, falar o que pensava, isso em certa ocasião. Isto ocorreu durante o Governo Vargas, após sua prisão (de Lobato). Foi a morte para ele, em se tratando de um escritor talentoso, criativo como ele foi.

Mas, mesmo no cárcere, não perdeu o humor e não conseguiu ficar quieto. Aproveitou este tempo, fez novas amizades, fez reivindicações para outros presos. No entanto, depois, em liberdade, de fato, ficou impossibilitado de se expressar e esta foi sua grande mágoa. Também teve uma grande decepção com nossos governantes quando foi Adido Comercial nos Estados Unidos. Estava cheio de ideias e nossos políticos permaneceram de ouvidos moucos.

Ele disse: “Diante de perigo algum recuei na vida; penso que essa coragem física muito me ajudou a vencer na luta que empreendi nos negócios, nas campanhas cívicas, nas denúncias deflagradas. Meu lema: E isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo”. Também assim se expressou: “Devo ser mineral e vegetal. Tenho partículas de ferro e de clorofila, no sangue e no caráter, daí, às vezes, ser doce como um mel e duro como um ferro”.

Mais para o final da vida, morando um ano na Argentina, conseguiu montar uma editora lá e escrever mais à vontade. A grande dor de Lobato foi ter que conviver com um governo corrupto, que não soube compreendê-lo, e também ver o nosso povo calado, passivo, sendo manipulado.

Quando criou a figura do Jeca Tatu, apontou o que considerava seus defeitos de caráter como indolência, fraqueza física e moral, covardia, um ser manipulável, sem objetivos na vida. Mais tarde, porém, lendo, fazendo pesquisas, estudando melhor o caso, teve que reconhecer que o homem do campo é, no fundo, um homem doente, carente de tratamento. Este é um ponto bastante positivo de sua personalidade – não teve orgulho, nenhum ressentimento em reconhecer seu erro.

Lobato entendeu e deixou claro que uma das missões da imprensa e do escritor é fazer o povo pensar, deve-se usar a pena objetivando promover mudanças. É mister ser um escritor engajado, esta era sua divisa.

Sempre procurou ser autêntico, buscando um estilo genuinamente brasileiro. Os nossos escritores imitavam muito os autores europeus e reproduziam o folclore estrangeiro. Lobato fez emergir o nosso: Saci, Boitatá, Iara, Curupira, etc. Misturou nossos heróis com outros de outras nações. Assim, deixou nossas crianças e, porque não dizer, nós adultos, também muito cultos. São suas palavras: “Botei o coração dentro das falas dos personagens infantis e misturei uma mitologia universal com uma particular, muito afetiva, nascida de meu próprio chão de infância”.

Outro mérito seu: ensinar brincando. Isto faz com que o aluno fique estimulado, curioso, sinta gosto pelo estudo. Isto aconteceu, de fato, valendo-se dos personagens do Sítio foi possível falar de assuntos importantes como História, Geografia, Gramática, Aritmética, curiosidades, etc, de um modo prazeroso. Ele nos deu um show de cultura, sem ser esnobe. Os escritores de sua geração eram muito maçantes.

É incrível o grande amor que tinha pelo Brasil! Fez conferências por todo país, arregaçou as mangas, durante a campanha do ferro e do petróleo, escreveu, debateu... Lutou por seu ideal. Realmente acreditava no que fazia. Muitos o consideravam um louco por arriscar demais. Drummond assim se expressou sobre ele: “Era um louco que arriscava, mas tinha um ideal, acreditava neste ideal”.

Recebeu muitos manuscritos para publicar, alguns eram ruins, mas nunca dizia: “Não, isto não presta”. Informava a pessoa que ele estava assoberbado de originais para ler, para esperar que, num futuro próximo, o seu livro seria analisado. Queria ver todo mundo alegre, era incapaz de um gesto de desprezo, por isso granjeou muitos amigos. Foi um descobridor de talentos, como disse atrás, um grande marqueteiro, no bom sentido, sabia muito bem fazer propaganda de suas obras e de sua editora.

Emília foi seu alter-ego, pois ele era brincalhão, irônico. É gozado como colocou bastante coisa de si na Emilia!

Vou terminar este artigo colocando algumas frases de Lobato que acho interessantes: “A tarefa do escritor de um determinado país é levantar um monumento que reflita as coisas e a mentalidade desse país por meio da língua falada nesse país”; “somos um grupo de franceses que escreve em português, absolutamente alheios, portanto, a um país da América que não pensa em francês, nem fala português”; “Por considerar a criança um adulto em ponto pequeno, é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno”, “Não compreendo a vida sem a poesia, sem o amor nem a liberdade, três coisas vitais e essenciais”.

Fonte de pesquisa
“Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia”, Carmen Lúcia de Azevedo e outros. Editora SENAC, 1997 (livro todo ilustrado, com muitas fotos, desenhos, caricaturas, aquarelas de Lobato, capas de seus livros, edições antigas e informações inéditas. É muito rico, trata-se de um biografia bem completa).

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